Como calculamos o preço do m² a partir do ITBI da Prefeitura
Números deste texto: vendas com ITBI pago na cidade de São Paulo, set/2025 a ago/2026, salvo indicação. Como calculamos →
O número que publicamos por distrito, o preço mediano do m² pago em vendas de apartamentos e casas na capital paulista, não é estimativa, modelo ou pesquisa de campo. É uma conta aberta sobre o arquivo de transações com ITBI pago que a Prefeitura publica. Este artigo percorre essa conta do início ao fim: o que lemos, como colocamos cada venda num distrito, que linhas descartamos e por que, e quais medidas calculamos.
O arquivo de origem
A Secretaria Municipal da Fazenda disponibiliza uma planilha por ano com as Declarações de Transações Imobiliárias efetivamente pagas, em Excel e ODS, e atualiza a do ano corrente todo mês com os dados do mês anterior, segundo a própria página da Prefeitura. A publicação mensal de cinco anos de dados de transações com ITBI está prevista no art. 18-A da Lei 10.235/1986, incluído pela Lei municipal 18.161/2024. Cada linha traz, entre outros campos, o número de cadastro do imóvel no IPTU (SQL), a natureza da transação, o valor declarado, o valor venal de referência, a data, o tipo de financiamento e características do cadastro, como área construída, uso e ano de construção. Nomes de comprador e vendedor não constam.
Duas definições da página da Prefeitura importam para quem interpreta o número. Primeira: cada linha é uma declaração paga no mês da planilha, independentemente da data de preenchimento ou da data da transação. Segunda: a data da transação é a do instrumento particular ou da escritura, e não a da promessa de compra e venda, do registro no cartório ou da aprovação do financiamento. Por isso o “mês” das nossas séries é o mês de pagamento da guia, e não o do primeiro aperto de mãos.
Lemos as planilhas de 2024, 2025 e 2026. O arquivo de 2026 que usamos leva no nome a data 30/09/2026 e traz guias pagas até ago/2026. No total foram 604.174 guias, de todas as naturezas e todos os usos de imóvel.
Passo 1: da guia ao distrito
A planilha não diz em que distrito o imóvel está. Diz o SQL, o número do contribuinte do IPTU, cujos primeiros seis dígitos identificam o setor fiscal (três) e a quadra fiscal (três). A malha de quadras fiscais está no GeoSampa, o mapa digital da cidade, que também traz os limites dos distritos municipais e das subprefeituras.
O procedimento é este. Primeiro, tomamos cada quadra fiscal do GeoSampa e calculamos um ponto garantidamente dentro do polígono. Segundo, verificamos em qual dos 96 distritos municipais esse ponto cai. Terceiro, ligamos cada guia à quadra pelo setor e quadra do SQL, herdando o distrito e a subprefeitura. Uma quadra pertence, nesta conta, a um único distrito, mesmo quando um limite corta a quadra. A cobertura desse cruzamento ficou em torno de 99,98% das guias lidas, e as que não cruzam ficam fora.
A zona (Centro, Leste, Norte, Oeste, Sul) segue a classificação regional que o GeoSampa associa ao distrito. Isso explica por que Moema e Vila Mariana aparecem na zona Sul, e não numa “região central” informal, como alguns bairros costumam ser rotulados no dia a dia. Quando um artigo da zona usa “zona”, é essa classificação.
Passo 2: o que fica e o que sai
Nem toda guia é uma venda de imóvel residencial a preço de mercado. Aplicamos os filtros abaixo, nesta ordem:
| Filtro | Regra | Para que serve |
|---|---|---|
| Natureza da transação | somente ‘1.Compra e venda’ | tirar leilão, dação, permuta, partilha e integralização de capital do número principal |
| Proporção transmitida | 100% | evitar fração ideal de imóvel, que distorce o m² |
| Uso do IPTU | apartamento em condomínio ou residência | limitar a imóvel residencial |
| Área construída | entre 20 e 1.000 m² | descartar vaga de garagem, depósito e cadastros com área errada |
| Valor declarado | a partir de R$ 50 mil | descartar valores simbólicos |
| m² resultante | entre R$ 500 e R$ 60 mil | descartar erros de digitação evidentes nas duas pontas |
O efeito do conjunto de filtros no volume é grande, e vale ver o funil:
| Etapa | Guias | Observação |
|---|---|---|
| Guias de ITBI pagas lidas (jan/2024 a ago/2026) | 604.174 | todas as naturezas, todos os usos de imóvel |
| Vendas residenciais válidas após filtros | 213.081 | 35,3% das guias lidas |
| Guias pagas na janela de 12 meses (set/2025 a ago/2026) | 240.062 | todas as naturezas e usos |
| Dessas, naturezas ‘1.Compra e venda’ | 214.169 | 89,2% das guias da janela, todos os usos |
| Vendas residenciais válidas na janela | 83.002 | 65.248 apartamentos e 17.754 casas |
A comparação da terceira e quarta linhas com a quinta mostra que apenas 38,8% das guias de “compra e venda” da janela viram vendas residenciais válidas. O restante são imóveis de outros usos (salas comerciais, terrenos, vagas, galpões), vendas de fração do imóvel e linhas descartadas pelos limites de área e preço. Não temos como dizer, só com o arquivo, quanto de cada coisa foi cortado em cada filtro, e por isso não publicamos esse detalhamento.
O filtro de natureza merece um comentário. Leilão (arrematação), por exemplo, aparece em apartamentos com mediana de R$ 2.713/m², contra R$ 5.010/m² da compra e venda comum, e a integralização de capital tem mediana de R$ 3.404/m². Misturar essas naturezas derrubaria a mediana de um jeito que não representa o que um comprador comum enfrenta. O tema do leilão tem artigo próprio: imóveis de leilão em São Paulo.
Passo 3: a conta do m²
O m² de cada venda é o valor declarado dividido pela área construída do cadastro do IPTU. Dois cuidados:
- O valor é o declarado pelas partes na guia, não necessariamente o que passou de mão em mão. A base de cálculo do ITBI na capital é o maior valor entre o declarado e o valor venal de referência, conforme a página de perguntas e respostas da Prefeitura (consulta em out/2026). Detalhes em valor venal de referência x valor de mercado.
- A área é a do IPTU, que inclui a fração proporcional das áreas comuns. O resultado é, de forma sistemática, menor que o m² “privativo” dos anúncios. A conta completa está em m² da escritura x m² do anúncio e área construída, privativa e total.
Apartamento é o uso do IPTU descrito como apartamento em condomínio; casa é o uso “residência”, que no cadastro pode abranger sobrados, casas de vila e outras residências unifamiliares. Não conseguimos separar casas térreas de sobrados ou de casas em condomínio fechado com o arquivo disponível.
Passo 4: as medidas
Para cada recorte (cidade, zona, subprefeitura, distrito, faixa de área, faixa de idade, financiado ou à vista) calculamos o número de vendas, a mediana do m², os percentis 10, 25, 75 e 90 (por interpolação linear), o valor mediano da venda (arredondado ao milhar), a área construída mediana e as parcelas de vendas financiadas e do Minha Casa Minha Vida. Para a cidade inteira, em set/2025 a ago/2026:
| Medida | Apartamento | Casa |
|---|---|---|
| Vendas (n) | 65.248 | 17.754 |
| Mediana do m² | R$ 5.010 | R$ 4.577 |
| P25–P75 | 3.692–6.767 | 3.313–6.290 |
| P10–P90 | 2.786–8.902 | 2.385–8.929 |
| Valor mediano | R$ 450.000 | R$ 505.000 |
| Área construída mediana | 100 m² | 120 m² |
| % financiado | 39% | 39% |
Compra e venda, set/2025 a ago/2026. Fonte: Prefeitura de São Paulo (ITBI), processamento Imóveis m².
Por que mediana e não média? Porque a distribuição do m² tem cauda longa para cima: poucas vendas de coberturas e imóveis de alto padrão puxam a média sem mudar o que a maior parte dos compradores paga. A explicação com o dado está em mediana x média no mercado imobiliário.
Passo 5: a janela e a amostra mínima
A janela padrão é de 12 meses de guias pagas (set/2025 a ago/2026). As séries mensais e anuais usam todos os meses desde jan/2024, e o ano de 2026 é parcial (jan a ago). Só publicamos uma estatística quando o recorte tem ao menos 30 vendas. Na janela atual, 91 dos 96 distritos têm mediana de apartamento publicada, e 90 têm mediana de casa publicada. Ficaram sem mediana de apartamento: Jardim Ângela, Marsilac, Parelheiros, Perus, São Rafael. Ficaram sem mediana de casa: Barra Funda, Bela Vista, Marsilac, República, Santa Cecília, Sé.
Trinta é um mínimo prático, não uma garantia de precisão. Um distrito com 31 vendas tem mediana publicada, mas bem mais instável do que um com 2.000. Por isso a tabela preço do m² por distrito mostra sempre o n ao lado do número, e os artigos regionais citam a amostra de cada distrito.
O que o método não resolve
- Valor declarado errado ou subdeclarado. O arquivo é declaratório. A existência do piso fiscal (VVR) limita, mas não elimina, o problema.
- Área do cadastro desatualizada. Se o IPTU registra uma área que não reflete reformas ou ampliações, o m² sai distorcido para aquele imóvel. Em milhares de vendas isso tende a se diluir na mediana, mas pode pesar em distritos pequenos.
- Heterogeneidade dentro do distrito. Um distrito é uma média de ruas muito diferentes, e o artigo o que faz o m² variar dentro do mesmo distrito mostra quanto.
- Não é avaliação. A mediana do distrito não é um laudo segundo a NBR 14653 e não deve ser usada como tal.
Privacidade e atualização
O processamento descarta o endereço, o SQL, a matrícula e o cartório depois de usá-los no cruzamento, e publica só agregados. A atualização segue o ritmo da Prefeitura, que é mensal. Quando o arquivo é corrigido na origem, reprocessamos tudo. Para conferir a conta numa região específica, a ferramenta de valor do m² devolve a faixa P25–P75 com amostra e período, e a página de metodologia concentra a política de correção.
Perguntas frequentes
Vocês publicam o endereço ou o número do IPTU das vendas?
Não. O arquivo da Prefeitura traz o cadastro do imóvel, mas o nosso processamento usa esses campos só para chegar ao distrito e descarta a linha depois. O que o site publica são agregados (mediana, percentis, contagens) por distrito, subprefeitura e zona.
Por que alguns distritos aparecem sem mediana?
Porque a amostra mínima para publicar é de 30 vendas na janela de 12 meses. Com menos do que isso, a mediana oscila demais com uma ou duas vendas atípicas. Na janela set/2025 a ago/2026, 5 distritos ficaram abaixo do mínimo para apartamento.
O que acontece se a Prefeitura corrigir uma planilha antiga?
A página da Fazenda já avisou, para anos anteriores, que arquivos foram corrigidos e devem ser baixados de novo. Nosso processamento relê as planilhas a cada atualização, e uma correção entra no número na rodada seguinte. Correções no nosso lado são datadas na página de metodologia.
Mediana é o preço médio do distrito?
Não. É o valor que separa a metade mais barata da metade mais cara das vendas. Médias são puxadas por poucas vendas muito caras, por isso usamos mediana e a faixa entre o percentil 25 e o 75.
Fontes
- Prefeitura de São Paulo, Secretaria Municipal da Fazenda: Dados das Transações Imobiliárias com recolhimento de ITBI
- Lei municipal nº 18.161, de 24/07/2024 (art. 18-A da Lei nº 10.235/1986)
- GeoSampa: Mapa Digital da Cidade de São Paulo (quadra fiscal, distrito municipal e subprefeitura)
- Prefeitura de São Paulo: notícia 'Prefeitura disponibiliza dados de transações imobiliárias' (09/06/2022)