O que faz o m² variar dentro do mesmo distrito

Publicado em 23/10/2026 · Última atualização em 23/10/2026

Números deste texto: vendas com ITBI pago na cidade de São Paulo, set/2025 a ago/2026, salvo indicação. Como calculamos →

Um distrito paulistano não é um bairro homogêneo. Itaim Bibi, Vila Mariana ou Tatuapé abrigam prédios dos anos 1960 e lançamentos recentes, quitinetes e apartamentos de 200 m², ruas arborizadas e avenidas. Quando publicamos uma mediana de distrito, estamos resumindo essa mistura em um número, e a primeira pergunta de quem usa o número deveria ser: “e o meu imóvel está no meio, ou numa ponta?”. Este artigo usa as 65.248 vendas de apartamento de set/2025 a ago/2026 para mostrar quanto o m² varia dentro de um mesmo distrito e quais fatores o arquivo permite medir.

Quanto varia: o tamanho da faixa P10–P90

A tabela abaixo reúne dez distritos com mais vendas de apartamento na janela e com amostra suficiente em cada faixa de idade. A coluna “P90 ÷ P10” diz quantas vezes o m² do décimo mais caro supera o do décimo mais barato, dentro do mesmo distrito.

DistritoApto: nP10–P90 (R$/m²)P90 ÷ P10Até 1989: mediana (n)1990–2009: mediana (n)2010 em diante: mediana (n)2010+ ÷ até 1989
Itaim Bibi2.8745.307–13.9822,63R$ 7.092 (869)R$ 7.663 (502)R$ 9.136 (1.503)1,29x
Vila Mariana2.7904.575–10.5012,30R$ 5.970 (883)R$ 6.071 (541)R$ 8.329 (1.366)1,40x
Jardim Paulista2.1525.650–14.4642,56R$ 8.147 (1.318)R$ 7.622 (223)R$ 10.259 (611)1,26x
Perdizes2.1184.595–10.1562,21R$ 5.757 (702)R$ 5.970 (489)R$ 8.417 (927)1,46x
Moema2.0035.293–14.1002,66R$ 6.891 (736)R$ 8.014 (537)R$ 10.670 (730)1,55x
Vila Andrade1.9472.255–6.1312,72R$ 2.538 (191)R$ 3.186 (705)R$ 4.741 (1.051)1,87x
Saúde1.8913.792–8.0912,13R$ 4.731 (535)R$ 4.921 (542)R$ 6.567 (814)1,39x
República1.7973.333–8.4112,52R$ 4.701 (901)R$ 4.530 (56)R$ 6.554 (840)1,39x
Tatuapé1.6143.147–7.3392,33R$ 4.012 (189)R$ 4.450 (462)R$ 5.800 (963)1,45x
Pinheiros1.5475.615–13.6482,43R$ 7.135 (538)R$ 7.697 (166)R$ 8.776 (843)1,23x

Apartamentos, compra e venda, set/2025 a ago/2026. Entre parênteses, o n de cada faixa. Fonte: Prefeitura de São Paulo (ITBI), processamento Imóveis m².

Para comparação, na cidade inteira o P90 de apartamento é R$ 8.902/m² e o P10 é R$ 2.786/m², razão de 3,20. Dentro de um único distrito como Moema, a razão fica em 2,66: em Moema, a venda do décimo mais caro supera o décimo mais barato em mais de duas vezes e meia. Ou seja, boa parte da dispersão da cidade existe também dentro de cada distrito, e uma mediana de distrito, sozinha, é uma referência grosseira para um imóvel específico. A faixa P25–P75 deve acompanhar o número sempre.

Fator 1: o ano de construção

O ano de construção é a variável mais clara que conseguimos medir (o cadastro do IPTU traz o ano de construção, e agrupamos em três faixas: até 1989, 1990 a 2009 e 2010 em diante). Em todos os dez distritos da tabela, as unidades construídas de 2010 em diante têm m² mediano maior que as construídas até 1989. A razão varia de 1,23x (Pinheiros) a 1,87x (Vila Andrade).

Na cidade inteira, o apartamento de 2010 em diante tem mediana de R$ 5.556/m² (n=32.981), contra R$ 4.815/m² dos construídos até 1989 (n=17.110). Duas hipóteses, que o arquivo não permite separar: prédios novos têm padrão de acabamento e áreas de lazer que valorizam o m², e os usados tendem a ter unidades maiores, o que reduz o m² (efeito tamanho, abaixo). O tema tem artigo próprio: apartamento novo x usado.

A menor razão da tabela, em Pinheiros, ainda é de 1,23x: mesmo ali, a diferença entre o usado antigo e o recente não é pequena. Nenhum distrito da tabela inverte a ordem, mas a magnitude muda bastante, e isso é um motivo a mais para não aplicar um “desconto de idade” único à cidade.

Fator 2: o tamanho da unidade

Unidades menores têm m² maior. É o efeito mais forte do arquivo, e age dentro de qualquer distrito. Na cidade, a mediana do m² de apartamento por faixa de área construída é:

Faixa de área construídaVendas (n)Mediana do m²P25–P75Valor mediano
até 44 m²5.886R$ 7.0835.455–9.143R$ 265.000
45 a 69 m²10.570R$ 4.8423.846–6.182R$ 273.000
70 a 99 m²15.752R$ 4.2503.380–5.571R$ 355.000
100 a 149 m²17.265R$ 4.6673.393–6.170R$ 550.000
150 m² ou mais15.775R$ 6.0324.314–8.000R$ 1.279.000

Apartamentos, set/2025 a ago/2026.

A curva é em “U”: o m² é mais alto nas unidades de até 44 m² (R$ 7.083/m²), cai nas faixas intermediárias (R$ 4.250/m² entre 70 e 99 m²) e sobe de novo acima de 150 m² (R$ 6.032/m²), faixa que provavelmente concentra apartamentos de alto padrão (hipótese), em que o valor mediano chega a R$ 1.279.000. O tamanho não é neutro à localização: unidades grandes concentram-se em certos distritos. Para isolar o efeito do tamanho do efeito do lugar, vale comparar a mesma faixa de área entre zonas:

Faixa de áreaOeste: nOeste: medianaNorte: nNorte: medianaSul: nSul: mediana
até 44 m²1.503R$ 8.845338R$ 5.5261.380R$ 8.157
45 a 69 m²1.561R$ 6.5381.419R$ 4.4642.397R$ 5.339
70 a 99 m²2.682R$ 5.9312.695R$ 3.7504.615R$ 4.403
100 a 149 m²4.175R$ 5.9812.180R$ 3.6286.263R$ 4.622
150 m² ou mais5.626R$ 7.0441.267R$ 4.2245.562R$ 5.915

Apartamentos, set/2025 a ago/2026. Mediana do m² por zona e faixa de área.

Com a área fixada, a distância entre as zonas ainda é grande: em apartamentos de 70 a 99 m², a mediana da Oeste é R$ 5.931 e a da Norte, R$ 3.750. Ou seja, tamanho e lugar contribuem de forma independente. O artigo apartamentos pequenos e studios aprofunda a faixa de menor área.

Fator 3: o perfil da venda

Nem todo preço do arquivo tem o mesmo significado. Dentro do mesmo distrito, uma venda à vista e uma financiada podem ocorrer em perfis de imóvel diferentes. Na cidade, a mediana do m² dos apartamentos vendidos à vista é R$ 5.120/m² (n=39.994) e a dos financiados, R$ 4.912/m² (n=25.254). A dispersão também difere: a faixa P25–P75 do à vista vai de 3.634 a 7.046, e a do financiado, de 3.750 a 6.400. A venda financiada passa por avaliação do banco e por teto de crédito, o que pode explicar uma faixa mais estreita (hipótese). O assunto está em ticket médio financiado x à vista.

A natureza da transação também importa, mas já filtramos: só compra e venda entra no número principal. Por isso o m² da cidade é R$ 5.010/m², e não o que sairia de misturar leilões, dações e integralizações de capital (que têm medianas bem menores, como mostramos em imóveis de leilão em São Paulo).

O que o arquivo não mede (e pesa muito)

  • A rua e o quarteirão. No mesmo distrito, a distância a uma estação de metrô, a uma avenida ruidosa ou a um parque muda o preço. O nosso processamento chega à quadra fiscal só para identificar o distrito e publica apenas agregados por distrito, então essa variação fica escondida dentro dele.
  • O padrão construtivo. O cadastro do IPTU traz o padrão da construção, mas não o incluímos nos agregados. Não vamos afirmar quanto ele explica.
  • Andar, vista, vaga, condomínio, estado de conservação. Nada disso consta no arquivo público. São características de cada imóvel, e é por isso que uma mediana de distrito nunca é uma avaliação (NBR 14653).
  • Reformas e área do cadastro. A área do IPTU pode não refletir reformas ou ampliações, e a fração de áreas comuns varia por prédio (área construída, privativa e total). Pela regra do art. 13 da Lei 10.235/1986, a área construída de uma unidade em condomínio inclui a parte nas áreas comuns, e como a proporção varia, o m² do mesmo preço varia entre prédios.

Como usar isso na prática

  1. Defina o seu recorte. Em vez de olhar a mediana do distrito, ache a sua faixa de área e de idade. A ferramenta de valor do m² faz isso: distrito, tipo, área e faixa de ano de construção devolvem a faixa P25–P75 e a mediana do valor total, com amostra e período. Quando a amostra do recorte é insuficiente, ela cai para a subprefeitura ou a zona e diz isso.
  2. Desconfie de distritos com poucas vendas. Em recortes com perto de 30 vendas, uma obra recém-entregue desloca a mediana. A tabela preço do m² por distrito mostra o n de cada um.
  3. Não use um distrito como régua de rua. O número serve para saber em que patamar de cidade você está, não para fixar o preço de um endereço.
  4. Compare com a mesma base. Veja m² da escritura x m² do anúncio antes de contrastar com um portal.

O método de cálculo está em como calculamos o preço do m² e na página de metodologia.

Perguntas frequentes

Por que dois apartamentos no mesmo distrito têm m² tão diferentes?

Porque o distrito é uma unidade administrativa grande, e dentro dele convivem prédios de épocas, tamanhos e padrões distintos. Na nossa base, a idade de construção e a faixa de área mudam a mediana do m² em dezenas de pontos percentuais dentro de um mesmo distrito. Rua, andar, vaga e conservação ainda não aparecem nos dados agregados.

Qual é a maior fonte de variação que vocês conseguem medir?

Entre as que o arquivo permite medir, ano de construção e faixa de área de construção. O arquivo também traz o padrão construtivo do cadastro, mas ele não está nos nossos agregados, então não afirmamos quanto ele pesa.

A faixa P25–P75 do distrito já cobre essas diferenças?

Em parte. A faixa mostra a dispersão total, sem separar as causas. A ferramenta de valor do m² refina a leitura pedindo área e faixa de idade, e mostra a faixa correspondente quando a amostra permite.

O endereço exato não explica boa parte da variação?

Provavelmente sim, mas o nosso processamento não publica nem usa o endereço: o arquivo é agregado até o distrito. Essa é uma limitação assumida, tanto por privacidade quanto por escopo.

Fontes